16/02/2009

O ENTRUDO

O texto que segue é de um grande amigo, poeta e cronista, com um grande sentido de humor e principalmente um apreciador das palavras e um grande amor pela humanidade. Como estamos em época de Entrudo, que, neste caso, significa máscara, comédia,... este parece ser um texto adequado.

ENTRUDO

Com um pouco de jeito, componho três parágrafos sobre o Freeport. Mas não dá: a coisa arrasta-se há tanto tempo, que já nada é verdade, já se têm dúvidas quanto à origem das denúncias, onde pára o dinheiro supostamente subornante, quem são os corruptos passivos e, muito provavelmente, o famigerado outlet nem sequer existe e é tudo uma invenção dos noticiários, tipo “A Guerra dos “Mundos” de Orson Welles.
Com um pouco de jeito, componho três parágrafos sobre o BPN. Mas não dá: Oliveira e Costa, presidente do dito, foi preso em Novembro passado, mas continua presente nos negócios que possui, o Banco de Portugal não encontrou vestígios de fraude fiscal, branqueamento de capitais e burla quando poderia, porque o rabo estava escondido com o gato de fora, Dias Loureiro estava lá mas ninguém o levava a sério e Teixeira dos Santos resolveu comprá-lo com o nosso dinheiro e oferecê-lo à CGD, qual porquinho-mealheiro mas com a ranhura das moedas por baixo.
Com um pouco de jeito, componho três parágrafos sobre os 150 mil postos de trabalho prometidos por José Sócrates, mais as novas oportunidades, mais o código de trabalho, mais o Magalhães, mais o investimento público, mais o tgv, mais a terceira ponte, e quarta via e a quinta essência da crise capitalista. Mas não dá: os despedimentos colectivos, um pouco por todo o lado, a paragem temporária forçada de um sem número de fábricas e o não pagamento dos salários devidos a trabalhadores, são problemas cuja origem está fora das nossas fronteiras. Também as reformas do ensino, da saúde, da justiça, da defesa, etc, têm o dedinho economicista como principal preocupação. O investimento há-de vir, há-de vir. Está bem que o Magalhães é inquebrável, mas é pena.
Com um pouco de jeito, componho três parágrafos sobre o Primeiro-Ministro e a sua nova saga de tirar aos ricos para dar aos assim-assim. Mas não dá: o Robin dos Bosques não funciona aqui, e sem o necessário casting poderia revelar-se um erro irreparável, semelhante ao que já aconteceu com outras colagens, como o camelo e o pinóquio.
Com um pouco de jeito, componho três parágrafos sobre os julgamentos mediáticos intermináveis. Mas não dá: a experiência diz que esta gente é mal compreendida. Correm diariamente para as salas de audiência, com passagem pelos telejornais, cansam-se, indignam-se com as perguntas dos jornalistas mais ousados, prejudicam as respectivas famílias com tanta ausência forçada e, vai-se a ver, é tudo malta do técnico, tipos porreiros, verdadeiros atletas a saltar de vara em vara.
O Entrudo tem três dias de calendário, dizem. Quarta-feira de cinzas é que eu quero ver…

João de Sousa Teixeira
teijoao@gmail.com

3 comentários:

Carlos Vale disse...

Gostava de escrever assim.
Fiquei de dar uma opinião. Já dei.
Onde se prova que a verdade se confunde com a ficção ou será o contrário?
São uns verdadeiros artistas.
Justiça? Onde anda ela?
Adivinhar um "The End" é fácil.
João, gostei.
Carlos Vale

Manuel da Mata disse...

Uma vez, numa dedicatória, o João escreveu: "Ó Manel quando é que te decides a aparecer em livro?"
Agora sou eu a lançar o repto: "Ó João, quando é que crias o teu próprio "blogue"?
O autor de "Mar de Pão", ó Carlos Vale, escreve mesmo bem!
Para os três - Chico, Carlos e João - um abraço e a camaradagem, do
Manuel da Mata

Anónimo disse...

isto não é novela de confrades
peçam uma sindicancia avenida egas moniz