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27/10/2008

Poesia que nos toca

Voltamos hoje a apresentar mais dois poemas de Eugénio de Andrade, cuja poesia temos vindo a ler e a reler.
Os poemas (dois) fazem parte do livro "Rente ao Dizer".

LÍNGUA DOS VERSOS

Língua;
língua da fala;
língua recebida lábio
a lábio; beijo
ou sílaba;
clara, leve, limpa;
língua
da água, da terra, da cal;
materna casa da alegria
e da mágoa;
dança do sol e do sal;
língua em que escrevo;
ou antes: falo.


ARTE DOS VERSOS

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.

Eugénio de Andrade [1923 - 2005]

27/09/2008

Poetas e poemas

O poeta de que hoje apresentamos dois poemas foi um dos maiores da língua portuguesa do século XX. Foi poeta e artista, um representante maior do surrealismo português. Os dois poemas que a seguir transcrevemos foram retirados de um livro famoso: PENA CAPITAL. E mais não dizemos. Convém apreciar a poesia.

you are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny [1923 - 2006]


voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe a cidade futura
onde "a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela"
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
"a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao
sol coisa nenhuma"
nada está escrito afinal

Mário Cesariny [1923 - 2006]

14/09/2008

Mais poetas e poemas

Continuamos a divulgar poetas e poemas, albicastrenses ou não, mas que de alguma forma nós consideramos importantes no campo da poesia e da cultura portuguesa. Assim apresentamos hoje dois poemas de um poeta, não albicastrense, mas que tem as suas raízes no distrito: nasceu na Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão e chama-se Eugénio de Andrade.

URGENTEMENTE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade [1923 – 2005]


AS PALAVRAS INTERDITAS

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

A noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade [1923 – 2005]

03/09/2008

A poesia de regresso

Tal como afirmámos na primeira mensagem dedicada à poesia e aos poetas continuamos a divulgar hoje um poeta de Castelo Branco e um dos seus poemas mais belos e mais conhecido. João Roiz de Castel-Branco é hoje mais conhecido porque o seu nome identifica uma das escolas da cidade. Divulgamos também um outro poeta, que embora não seja natural de Castelo Branco a sua família é originária do distrito, do concelho de Idanha-a-Nova. Manuel Afonso Costa além de poeta é professor e tem publicadas alguns livros de poesia e também de História.

SENHORA, PARTEM TAM TRISTES

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tam tristes, tam saudosos,
tam doentes da partida,
tam cansados, tam chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.

Partem tam tristes os tristes,
tam fora d’esperar bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castel-Branco [século XV]

A tarde completa como se
o momento de sermos se reduzisse
ao modo como o vento espreita
e toda a ousadia desse crime mergulha
no espaço no lastro da tua
impaciência
a nuvem que o ar paralisa
o sentimento que te empurra para
dentro do silêncio fará da tarde
tela inacabada
e como tudo o que é interrompido
devolver-te-á o sentido do ser
a tua tristeza sem razão que se veja
a tua tristeza sem remédio
Tal como a noite que chega
sem saberes estás ligado ao tempo
através de nomes que são também
objectos da mesma biografia.

[Manuel Afonso Costa, Os Limites da Obscuridade]


Imagina o que a cidade segrega
certas ruas alguma mágoa
Despes-te em frente ao espelho
dos meus olhos devagar
porque há em cada gesto
uma casa onde a luz se apaga
uma praça de súbito vazia
um último café de bairro
fechando as portas
eu passo nesses gestos
que te aproximam do sono
esse mínimo espanto
com que prolongas a cidade

[Manuel Afonso Costa, Os Limites da Obscuridade]

30/07/2008

QUE BELA É A POESIA!

Castelo Branco tem sido local onde nasceram alguns poetas, escritores e artistas de outras áreas com alguma nomeada. Vamos tentar divulgar alguns, especialmente no campo da poesia de que gostamos especialmente. Para começar vamos apresentar três poemas e dois poetas: um que todos conhecem(que não é albicastrense) e outro que é albicastrense.

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa[Lisboa, 1888-1935]


RETRATO DE POETA

Nunca me fizeram um retrato
de poeta.
Mas fotografaram, pintaram e até esculpiram Pessoa
com o inevitável chapéu de feltro e o par de lunetas
que repartia com todos os heterónimos.
Não tenho um único retrato
de poeta.
Ao contrário de Walt Whitman,
que foi imortalizado em pose de patriarca iluminado,
velho, de barbas esgadanhadas muito além da decência
da pilosidade poética.
A Baudelaire que era feio, fizeram-no
com certeza por maldade.
Eu é que nunca posei
enquanto poeta,
com a mão apoiando o queixo, como os românticos
ou ambas todo o rosto, como os surrealistas.
Ou será ao contrário?

Vá lá, por favor, façam o meu retrato
de poeta,
que não tardam aí poetas do futuro,
desejosos de escrever sobre ele um ou dois versos
dum poema magnífico.

João de Sousa Teixeira(2008).
Rebuçados, Caramelos & Sonetos. RVJ Editores. Castelo Branco.

BEIJA-FLOR

Quem por beija-flor
me tome,
saiba que o faço por amor,
não por fome.

João de Sousa Teixeira.(2008).Rebuçados, Caramelos & Sonetos. RVJ Editores. Castelo Branco.